Tuesday, January 3, 2012

O que o cinema e a filosofia têm a dizer um ao outro? (postagem 1)


1. Cinema e filosofia
O que o cinema tem a oferecer à filosofia? Passado mais de um século de sua história, dificilmente se poderia duvidar que essa arte tenha oferecido contribuições importantes a filósofas# e filósofos. Quantos de nós já não recorreram a filmes como meios eficientes para ilustrar problemas e/ou teorias filosóficas, no intuito de torná-las mais acessíveis? Temos aqui um caso de contribuição pedagógica à filosofia#: a suposição nesses casos é que sabemos de antemão o que pode (e o que não pode) ser considerado um problema e/ou uma reflexão filosófica legítimos e que, de posse de tal critério, podemos identificar nos filmes algum tipo de “apoio” para essa reflexão. Mas será que o cinema pode oferecer alguma contribuição propriamente filosófica à filosofia? Nas próximas postagens argumentarei que sim: pelo menos alguns filmes podem funcionar como exercícios filosóficos, o que implica que eles podem expor problemas e propor soluções filosóficas em seus próprios termos, suscitando mudanças no modo de vermos as coisas que normalmente associamos a (alguns tipos de) filosofia, e que ao fazê-lo podem nos ensinar o que é (e o que não é) filosofia.

Saturday, November 26, 2011

Cinema e Educação Moral

Uma das questões que deram o norte para nossa investigação ao longo deste semestre foi tentar responder qual a relação interna e, portanto, necessária, entre cinema e filosofia. A aposta era alta: que o cinema faz filosofia. Deixamos no banco de reserva a assertiva mais comum de que o cinema pode ilustrar uma tese ou problema filosófico. Esta dimensão, por mais interessante que seja, (e tivemos vários momentos que confirmaram este caráter ilustrativo ao longo de nossas proveitosas discussões, em especial sobre Cisne Negro e Pride and Prejudice) é de mais fácil manuseio. As discussões que aproximam a Literatura do pensamento moral filosófico já se encarregaram de demonstrar a pertinência dessa afirmação.

Saturday, November 12, 2011

Natureza, técnica e finitude


“O que é esta guerra no coração da natureza? Por que a natureza rivaliza consigo mesma?”


Essa frase enigmática é a primeira enunciada em The Thin Red Line. Ela dá a tônica de todo o filme. Minha ideia é que ele apresenta o homem como parte integrante da natureza1. A agressividade da forma de vida ocidental em relação aos outros membros da natureza (animais e vegetais) fundar-se-ia na crença de que o homem não seria, também, um ser natural. Por ser, supostamente, um ser mais-do-que-natural ou, pelo menos, mais-do-que os outros seres naturais, os interesses do homem teriam prerrogativa em relação a qualquer interesse de qualquer (outro) ser natural. Aliás, esses interesses seriam até diametralmente opostos: só poderia haver fartura humana com grandes custos à natureza, e vice-versa. Eis porque, explicando a frase, seria uma guerra e a natureza (homem) rivalizaria consigo mesma (demais seres naturais).

Monday, November 7, 2011

O aprendizado de um herói


O gladiador entra no Coliseu ao anúncio do seu número de vitórias e derrotas. Ele é um homem livre com poucas posses ou um escravo buscando comprar sua liberdade. De qualquer modo, mais uma demonstração de virtude militar é do que ele precisa para continuar sua breve ascensão social. Mas ele perde, e aí, então, o Imperador julga diante do público se ele merece viver. “O momento da verdade”, o momento em que a morte se torna uma possibilidade latente, mais ainda do que durante o combate. O momento em que “a atenção da multidão volta-se exclusivamente não ao vencedor, mas ao perdedor, quem - por pelo menos alguns momentos - vive publicamente na face da morte. O que se espera que o lutador derrotado mostre sob essa circunstância de aprovação é compostura, uma face ‘fria como o gelo’, ‘dura como uma pedra’, impenetrável como uma máscara” (Gumbrecht, 2005: 105-6). A expectativa pelo momento da verdade é uma forte razão (senão a razão) pela qual as lutas entre gladiadores cativaram o Império Romano, pois era satisfazendo a demanda moral da impassibilidade diante da morte que o lutador derrotado tinha a chance de reerguer-se como um herói.

Thursday, October 13, 2011

Stella Dallas: heroína patética

Na aula de três semanas atrás (quarta, dia 28.09), durante a discussão sobre o filme Stella Dallas, eu propus uma leitura alternativa àquela apresentada por Cavell no seu livro Contesting Tears, em que ele, por sua vez, está apresentando uma alternativa à leitura consagrada de Stella como a mãe que, no ato máximo de auto-sacrifício em função da filha, termina por renunciar à própria existência. No seu último post o Marden abordou a discussão em aula, se preocupando, num primeiro momento, em sistematizar as leituras propostas e investigar até que ponto o que eu sugeri não era até compatibilizável com a leitura emersoniana que Cavell sugeriu. À medida que avançava, no entanto, a proposta de determinar as relações entre as leituras, assim como a perspectiva de um aponte para qual destas melhor se encaixava no filme, deu lugar a pergunta sobre se o filme não tinha antes a intenção de não se permitir ser analisado por completo – o que constituiria um traço ainda mais genial do filme, ao denunciar uma prática digna de uma platéia ou estreante ou muito exausta (de uma forma ou de outra desrespeitosa) ao querer esgotar uma obra de arte.
Eu tenho algo a dizer sobre isso (e acho que vá, mais tarde), mas agora eu acredito que a demanda é por terminar (e corrigir aonde eu acho que é necessário) o trabalho de sistematizar as leituras e suas relações, principalmente no que concerne a minha leitura e a sua oposição à cavelliana.

Wednesday, October 12, 2011

The Problem of Recognition

Autora: Daniela Goya Tocchetto

If, however, we are thereby given everything we need to know – indeed, everything there is to know – about the replicants which is relevant to their claim for human status, if we (and anyone in the world of the film) can see that nothing counts against their being treated as human, how and why do most of the human beings in the film apparently fail to see this? (Mulhall, Page 34)
(…) for nothing counts against the replicants being treated as human except the unwillingness or refusal of other human beings to do so. No accumulation of facts or testimony of the senses can compel someone to acknowledge behavior that fulfils all the criteria of pain behavior as the genuine expression of another human being's pain. Bryant's failure to acknowledge the replicants as human is not based on ignorance or repression of these facts, but is rather the expression of one possible attitude towards them. It follows that the humanity of the replicants is in the hands of their fellows; their accession to human status involves their being acknowledged as human by others, and if their humanity is denied, it withers. (Mulhall, Page 35)

My brief inquire is directed towards the missing connection between the unwillingness and the willingness to recognize another living being as human. What is necessary, if anything, for a person to overcome the unwillingness to recognize another as human? And why isn't this missing link the ultimate criterion for a living being to be considered human? I would like to argue that the missing link, the ultimate factor that enables humans to acknowledge the humanity of others is dependent on a cultural and social derivation of an established power structure in society. My argument will be based in the feminist tradition of a social construction of the idea of humanity.

Sunday, October 9, 2011

Comentário à postagem do Marden, "Irresolução e Expressividade"


Mais um comentário que precisou virar postagem... Cito abaixo o final da passagem de Emerson que citaste na postagem original, seguido do teu comentário:

"See the line from a sufficient distance, and it straightens itself to the average tendency. Your genuine action will explain itself and wil explain your other genuine actions. Your conformity explains nothing.
Há indicações, portanto, de que algo como a leitura 3 seria a princípio consistente com o desiderato e as condições do unattained but attainable self."

OK, era isso que eu também estava intuindo na nossa discussão, e as razões que apresentaste, fazendo uso da citação de Emerson, me pareceram muito boas. A moral parece ser: agir autenticamente ou em "não conformidade" (com a sociedade) é perfeitamente compatível com (pelo menos algum grau de) opacidade da agente (para si mesma).